terça-feira, 27 de maio de 2008

A vida imita um livro

"Acho que você poderia encarar como amargura, se quisesse. Eu não me acho amargo, mas me decepcionei comigo mesmo; achava que ia terminar valendo um pouco mais do que isto, e talvez essa decepção acabe aparecendo de forma toda errada. Não é só o trabalho; não é só a coisa de ter trinta e cinco anos e ser solteiro, embora nada disso ajude. É... ah, não sei. Você já viu um retrato seu de quando era criança? Ou retrato de pessoas famosas quando eram crianças? Tenho a impressão de que eles podem nos tornar alegres ou tristes. Existe um retrato lindo de Paul McCartney quando garotinho, e, da primeira vez que o vi, fez com que eu me sentisse bem: todo aquele talento, todo aquele dinheiro, todos aqueles anos de domesticidade abençoada, um casamento sólido feito rocha e filhos lindos, e ele não sabe de nada ainda. Mas existem também os outros – JFK e todas as mortes e cagadas do rock, as pessoas que enlouqueceram, pessoas que saíram dos trilhos, pessoas que assassinaram, que fizeram sofrer a si ou aos outros de formas por demais numerosas para serem mencionadas – e você pensa, não dê mais um passo! Isso é o máximo que você vai conseguir!

A partir de dois anos para cá, as minhas fotos de quando eu era criança, aquelas que eu nunca queria que minhas antigas namoradas vissem... bem, começaram a me dar uma agonia leve, algo como – não exatamente infelicidade, mas uma espécie discreta e profunda de arrependimento. Há uma em que estou de chapéu de caubói, apontando uma arma para a câmera tentando parecer um caubói sem conseguir, e hoje em dia eu quase não consigo mais olhar para ela. Laura a achava doce (ela usou essa palavra! Doce, o oposto de azedo!) e a pendurou na cozinha, mas agora coloquei-a de volta na gaveta. Fico querendo pedir desculpas para o sujeitinho: “desculpe, eu decepcionei você. Eu era a pessoa que deveria tomar conta de você, mas fiz uma cagada: tomei decisões erradas em momentos ruins e transformei você em mim.”

Veja bem, ele teria querido ver a banda de Barry; ele não teria se preocupado com o jeans de Ian ou com a caneta-lanterna de Penny (ele teria adorado a caneta-lanterna de Penny) ou com as viagens de Charlie aos States. Ele não teria compreendido, na verdade, porque eu criticava tanto eles. Se ele pudesse estar aqui agora, se pudesse pular daquela foto e para dentro desta loja, ele sairia correndo porta afora e de volta a 1967 o mais rápido possível que suas pernas pequenas pudessem carregá-lo."

Alta Fidelidade, pg 167
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Que Darth Vader tem muitas qualidades, isso todo mundo sabe. Mas eu não imaginava que senso de humor seria uma delas.


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